sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Brutal Morticínio: "O elitismo, o conservadorismo e o machismo são insustentáveis no Metal"

A Urussanga Rock Music trouxe à mesa de entrevistas, a Brutal Morticínio de Novo Hamburgo- RS, para debater assuntos concomitantemente relevantes sobre o cenário musical brasileiro: a ascensão do neofascismo e do Cristianismo no Underground.

Foto 1: Facebook da Banda

 Primeiramente, obrigado por nos conceder essa entrevista. Hoje a Brutal Morticínio consequentemente é tida como uma das maiores bandas Underground do Sul do país. Nesses 12 anos de estrada, qual a visão do grupo em relação a essa trajetória?

Matheus: Primeiramente gostaríamos de agradecer por esta oportunidade. A banda teve início em 2006. Teve como ponto inicial fazer um som ríspido, voltado para a velha escola do metal negro, com músicas que versassem sobre a nossa cultura e os ideais de resistência próprios do povo latino americano. Desde o início tivemos o propósito de elaborar esta vertente do Pagan Black Metal com uma temática indigenista e voltada para a defesa dos povos que nativos da América. Desde o surgimento da banda até agora, podemos perceber a modificação do underground. Ainda que tímida acredito que boa parte das pessoas que está inserida neste meio tornou-se mais consciente de seu papel e do próprio papel da cultura de resistência que é o underground. Apesar de ser ainda apenas uns passos iniciais neste sentido, acredito que pudemos dar a nossa parcela de contribuição, o que nos deixa muito realizadas, uma vez que é um dos objetivos da própria existência da banda.

Christian: Agradecemos o espaço. Não cheguei a fazer parte do início da banda, mas sempre achei muito interessante a proposta. Quando ouvi o primeiro disco pela primeira vez achei muito foda. Pensei: deveriam existira mais bandas como essa. Hoje vejo como a banda teve um reconhecimento positivo nesses anos de trabalho e luta pelo e no Underground e me sinto honrado em fazer parte disso.

Na banda já passaram diversos integrantes e constantes modificações entre os mesmos. O que essas mudanças influenciaram no resultado atual?

Matheus: Acredito que o ideal para uma banda é ter os seus integrantes estabilizados. Nem sempre isso é possível. Acredito que a maioria dos músicos que tocou conosco deu sua parcela de contribuição. Prezamos principalmente pela ideologia e seu comprometimento com a banda e o underground, antes de suas ditas qualidades como “músico”. Creio que cada um dá sua parcela de contribuição e acaba deixando a sua marca na banda. 

Christian: Acho que todos, exceto um, têm sua contribuição de uma forma ou de outra. Manter uma formação as vezes não é uma tarefa muito fácil, uma vez que tem vários fatores que podem dificultar, como trabalho por exemplo. Mas para nós o mais importante é o comprometimento. Outro fator importante é ser compatível com a ideologia da banda. Recentemente cometemos um erro de contar com alguém que conhecíamos pouco sobre, e que depois acabou se mostrando de verdade. Tomamos a providencia na mesma hora.

O primeiro full length “Despertar dos Chacais... O Outono dos Povos” explicitou (assim como a demo lançada anteriormente) a pluralidade temática que remete assuntos como a podridão humana, a morte e a hipocrisia religiosa. Como foi o procedimento de desenvolvimento do álbum?

Matheus: A história da construção do álbum está meio na gênese da banda. Uma vez que ela se origina para tocar esses sons e tentar resgatar algo de old school que havia se perdido em parte naquele momento. Além de abordar uma temática diferenciada, uma vez que era muito comum na época bandas brasileiras versando sobre mitologia nórdica e outras abordagens de um distanciamento com um diálogo mais real com nossa história e com nossas vivencias. Desde o início tivemos o propósito de divulgar um som com ideais e sonoridade fora dos padrões impostos pela sociedade, que muitas vezes acabam minando o próprio Underground.

A banda tem também como propósito, construir uma contraofensiva a todo o conservadorismo impregnado no Metal. Isto está apenas no começo e por isso as bandas precursoras sofrem um pouco mais, mas acredito que este pensamento cristão/ capitalista, tem seus dias contados dentro do Metal Extremo. A receptividade de início da mídia chamada de especializada foi bastante fria, pois há uma preferência clara destes órgãos maiores de divulgação por certas hordas que estão mais na “moda” ou pelos velhos medalhões e sem dúvida alguma, para as bandas da Europa. No entanto, a receptividade dos reais guerreiros foi muito boa e interessante. Passamos a estabelecer muitos contatos com guerreiros de todas as regiões do Brasil, trocando ideias e materiais, um saldo para mim muito positivo.

Foto 2: Metal Archives
Christian: Não participei no desenvolvimento desse trabalho, mas gostaria muito de ter feito parte. É um disco espetacular. Acredito que retrata bem a banda quanto a ideologia.

O último trabalho que vocês difundiram se chama “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais” e lá inclui um trabalho digno de ser um estudo antropológico. Os povos ameríndios, os nativos e a cristianização são expostos de maneira direta e crua. Hoje quatro anos depois, pensando nesses povos, ainda há grande resquícios dessa “europeização” do latino-americano?

Brutal Morticínio: A proposta da banda sempre foi ter este viés de reconhecimento e de valorização dos povos ameríndios. Do Brasil, mas como um todo. Acho muito importante termos este reconhecimento histórico. A resistência destes povos assim como das populações negras, foi durante um bom tempo relegadas a um segundo plano na cultura do Metal Underground, o que acabou por acarretar um terreno fértil para manifestações elitistas e racistas. Na minha opinião, são a própria antítese do movimento.

Foto 3: Metal Archives
O Brutal Morticínio propõe além de fazer a valorização dos povos nativos e a assim dita história dos esquecidos, mas também tentamos estabelecer um diálogo com a resistência atual principalmente destes povos, mas dialogar com a resistência e a colaboração mútua que existe por exemplo nos movimentos sociais. No meu ponto de vista é desta forma que conseguiremos vencer a europeização e a cristianização, que no final das contas é um amálgama para o sistema capitalista fazer a sua exploração de maneira velada. Deixá-lo mais explícito, deixar que ele mostre sua cara mais cruel também é papel na resistência dos povos nativos e também do próprio Underground.

Há um coletivo denominado MRU (Movimento de Resistência Underground) e lá são debatidas ideias sobre o fascismo, o conservadorismo e a ascensão da extrema direita no underground. Recentemente pegando o gancho, vocês se posicionaram contra um candidato intolerante da escória cristã. Como foi a receptividade perante ao público sobre tal ato?

Matheus: Acredito que a criação e a aglutinação de pessoas com um pensamento mais crítico em grupos como o MRU e o RABM são altamente positivos, e também o resultado de um amadurecimento do próprio metal underground, que passa a não analisar as coisas apenas de maneira dogmática, estabelecendo a música e a atitude com uma relação em pé de igualdade. Cada vez que a atitude é posta em discussão, o conservadorismo, elitismo, machismo e outras coisas babacas que estavam inseridas no Metal Underground, elas ficam cada vez mais insustentáveis.

As eleições deste ano (2018) escancararam uma série de valores que haviam sido domesticados nos anos pós ditadura. Saíram do armário uma série de preconceitos que pareciam não existir mais. Isso se reflete diretamente entre os apreciadores de Metal Extremo.

Christian: Sobre o ato, recebemos uma onda de ataques no início, como fizeram com todos que se pronunciaram contra durante as eleições. Alguns xingamentos até eram engraçados de ler. A página até passou a ter mais seguidores verdadeiros enquanto que os seguidores do tal candidato foram saindo junto com o ataque em massa.

Em entrevista ao Whiplash, vocês puderam exprimir um pouco de seus pensamentos sobre o nazismo. Atualmente no Sul do país, há um número alarmante sobre tendências do tipo. Inclusive recentemente houve um caso no underground gaúcho envolvendo essa prática. Na opinião de vocês, porque esse número é tão alarmante visto que nossa região foi berço de grandes políticos como Brizola e João Goulart?

Matheus: Acredito que por ser uma região de colonização alemã e italiana misturada com uma tremenda falta de acesso à cultura e educação faça-se essa relação bastante tosca. Por algum motivo ilógico, acreditam que a cultura alemã ou italiana é superiora. Sustentam isso no pretenso desenvolvimento do Sul do pais em detrimento do restante, principalmente Norte e Nordeste. Não há a tentativa mínima de compreender os aspectos econômicos, históricos e políticos que levaram a esse diferente desenvolvimento. Apenas de uma maneira ridícula apontam para a questão racial.

Sem dúvida, Brizola tem um importante papel na luta contra os militares na campanha da legalidade ocorrida aqui em Porto Alegre nos anos 60, além disso, o sul do Brasil tem uma larga tradição do movimento operário, desde os grupos anarquistas do início do século XX, passando por Luis Carlos Prestes, a organização do Fórum Social Mundial e o orçamento participativo mais recentemente. Experiências concretas da luta dos trabalhadores. Os próprios imigrantes alemães e italianos, além dos espanhóis carregaram para o Brasil a experiência da luta operária e de sua organização. É uma pena e um grande atraso que a população aqui do Sul ultimamente pense de uma maneira muito mais conservadora do que, por exemplo, no final do século passado.

Mais preocupante ainda, é ver a cena do underground concordando com o pensamento ultraconservador e caindo nas ciladas da grande mídia e se achando “cult” por disseminar os mesmos preconceitos seculares do país. É foda, mas tem momentos em que o pensamento do pastor e do “banger” do NSBM são exatamente a mesma!

Presenciamos neste último momento de eleições gerais que os radicais de direita saíram do armário. O que temos visto aqui no Sul é que de toda essa marra e discursos de violência rumou para a tendência oposta. Por suas posturas eles escolheram ficar escondidos em casa e não participam dos eventos. Na prática foi bom para o underground, pois vimos quem é quem, e pudemos presenciar toda a postura preconceituosa e covarde dos militantes da direita.

Christian: Cara, realmente não sei até onde a colonização tem relação a isso, ou a "Europa" no Brasil, mas acho que tem mais relação com a ignorância cultural e política mesmo. Esses nomes que foram dados como exemplo na questão, muitos não vão saber quem são. Outros vão lembrar do nome, pois já ouviram falar em algum lugar.  Quanto a essa banda, fiquei sabendo e é revoltante ver que no meio tem gente do tipo. Assim como tanta gente apoiando Bolsonaro.

Em setembro, fizemos a cobertura do River Rock Festival e lá se apresentou uma banda chamada Turba Iracunda, os músicos originários da Argentina trouxeram o antifascismo tradicional da América do Sul para o fest. Para vocês, porque há ainda uma barreira muito grande de difusão do Metal latino em nosso país?

Matheus: Acho bastante interessante e também bem complicada esta coisa. Muitos países produzem muito e tem uma cena relativamente grande. Infelizmente pouca coisa de bandas latinas ou de outros lugares que não seja a Europa ou os EUA nos chegam. Os países latinos como o México ou o Equador produzem muito e muita coisa de qualidade, mas pouquíssimo acesso temos. Nós erramos. Nos acostumamos nesse papel passivo de apenas receber da Europa, num comportamento bem bizarro que na prática reproduz o mainstream.

Com o advento das tecnologias de compartilhamento deveríamos ter um papel muito mais ativo e realmente de underground e de grande resistência ao chamado “mercado fonográfico” que mesmo entre nós opera de forma violenta, valorizando os artistas, sobretudo europeus, e necessariamente não acho que ficamos devemos em nada para eles.

Christian: Sinceramente, acredito que muitos não conhecem ou não sabem sequer sobre a própria cena local, imagine de fora. Os países vizinhos estão com muitas bandas boas e uma cena bem interessante, mas só ouvimos falar de bandas dos EUA ou da Europa. E até acho que de certa forma tentam nos fazer "engolir" isso.

Em relação aos novos projetos, o que podemos esperar nos próximos meses?

Matheus: Estamos lançando o nosso terceiro álbum “An Indigenous War Black Metal Front”. Primeiramente o álbum será divulgado apenas pelo YouTube pela Dragon Distro & Productions com o apoio da Balrog Records e dos portais RABM e MRU. Até o início do ano de 2019, o álbum também estará em outras plataformas exclusivamente digitais. Entre março e abril de 2019 o lançamento do álbum em formato tape será realizado pela gravadora Balrogh Records. O álbum “An Indigenous War Black Metal Front” foi mixado e masterizado por Roger Fingle no estúdio Nitro em Caxias do Sul (Rio Grande do Sul). Roger Fingle também produziu o segundo álbum da Brutal Morticínio intitulado “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais”.

Ele também será, como os demais, um álbum conceitual cantado predominantemente em português onde são abordadas questões como o massacre e a luta de povos indígenas no processo de colonização e também a sua resistência nos dias atuais.

Foto 4: Metal Archives
Christian: Estamos perto de lançar o novo trabalho. Primeiramente vai ser lançado virtual e no ano que vem vai sair o material físico. Esperamos fazer shows pelo Brasil.

Formação Atual.

Brutal Morticínio: A banda passou por inúmeras mudanças no seu line up, mas atualmente conta com: Tormento (Baixo e Vocal), Chris Podreira (Guitarra) e Inglorion (Bateria).

Plataformas Virtuais.

Um recado para quem nos acompanha.

Brutal Morticínio: Gostaria de agradecer ao espaço concedido ao Brutal Morticínio e gostaria de convidar a todos os leitores para acompanhar o nosso som através de nossas mídias e também convidar a todos os reais guerreiros do underground a firmarmos uma parceria como um fim de uma ajuda mútua para a construção de uma cena mais comprometida com os reais valores do underground.


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